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Olimpia, 10 de Janeiro, 2021 - 19:15
Aceita Santos Reis, Patrão? Tradição e Fé em tempos de pandemia da Covid-19

“Neste novo cenário, de isolamento social,
as Companhias de Reis buscaram se adaptar
a essa nova realidade (...). Algumas 
realizaram pequenos rituais, reunindo
apenas os integrantes de
suas famílias em suas casas".

Estêvão Amaro dos Reis

Ôh, Patrão! Aceita Santos Reis? Todos os anos, quando o Natal se aproxima, esta pergunta é ouvida em vários cantos do Brasil, mais especificamente no período que corresponde a meados do mês de dezembro até o dia 6 de janeiro, dia dedicado aos Santos Reis. Dita em voz alta e precedida por toques de bumbos e flautas, ela indica que, à porta das residências, se encontra uma Companhia de Reis pedindo licença para adentrar às casas e celebrar o nascimento do menino Jesus. A tradição dos Santos Reis é encontrada em muitos estados brasileiros, principalmente na região sudeste: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em Olímpia, a Capital Nacional do Folclore, essa tradição é mantida por famílias de “reiseiros” da cidade, que conta com 14 Companhias de Reis em atividade, algumas delas quase centenárias, como é o caso da Companhia de Reis da Família Miranda, do Bairro São José, que tem hoje o Sr. Toninho Miranda como Embaixador.


As Companhias, ou Folias de Reis, como também são conhecidas, podem ser definidas como associações católico-populares voluntárias, que atuam de forma autônoma, dramatizando, de forma simbólica, a jornada mítica dos Reis Magos do Oriente até Belém. As Companhias de Reis têm como objetivo principal louvar os Santos Reis e fazem isso através de sua música, em uma jornada anual, onde visitam as casas da comunidade, cantam e abençoam os seus moradores em troca de donativos para realização de sua festa, a Festa de Chegada de Reis. As Chegadas de Reis são realizadas a partir do dia 6 de janeiro, se estendem por todo o mês e constituem momentos de fartura para toda a comunidade.

Existe mais de uma narrativa que fundamenta a tradição das Companhias de Reis e que pode variar de acordo com a região. Uma delas tem como fio condutor o pagamento de uma promessa feita aos Santos Reis, na maioria das vezes por motivo de saúde. Neste caso, a constituição e manutenção de uma Companhia de Reis e a realização de sua Festa de Chegada são maneiras de agradecer a graça alcançada. Mais importante que a natureza da promessa é o compromisso firmado com os Santos Reis, que será honrado e renovado periodicamente. Uma outra sustenta que os Três Reis Magos, os Santos Reis, teriam se tornado músicos pelas mãos de Nossa Senhora, que deu a cada um deles um instrumento musical em troca dos presentes dados ao menino Jesus. Isto justificaria o fato de a Companhia de Reis utilizar a música para louvar os Santos Reis.

As Folias de Reis podem variar quanto ao número de componentes, chamados de foliões, muitas vezes integrantes de uma mesma família, que são divididos de acordo com a função que desempenham no grupo: embaixador; mestre; contra mestre; músicos; bandeireiro e palhaços, também denominados de fardados ou bastiões. A instrumentação e o estilo musical também variam e são classificados pelos próprios foliões como estilo à moda baiana, mineira e paulista. Atualmente, o estilo mineiro é o mais disseminado na região Sudeste, e em Olímpia predominam as folias que cantam à moda baiana. A Companhia Estrela da Paz, do Embaixador José Ferreira, é a única em Olímpia que canta no estilo paulista. Outra característica desta companhia é a ausência da figura do palhaço.

Essas práticas, ligadas às Companhias de Reis e também a outras manifestações do folclore e das culturas populares brasileiras, são práticas essencialmente coletivas. A realização do giro e a organização de uma Festa de Chegada só é possível graças ao envolvimento e a colaboração de um grande número de pessoas. Além dos foliões, os moradores da comunidade que, ao receberem as Companhias em suas casas, realizam doações para a festa. As famílias responsáveis pela guarda da bandeira durante o giro. As famílias que fizeram promessas para as Companhias cumprirem. Os Reis Festeiros, responsáveis pela maior parte dos custos de realização das Chegadas. A comunidade como um todo se reúne em torno de um objetivo comum, que é agradecer e louvar os Santos Reis. Desse modo, em um contexto onde a pandemia da Covid-19 impôs ao mundo regras sanitárias rígidas e isolamento social, as práticas das Companhias de Reis sofreram um grande impacto. Na impossibilidade de realizar os giros para arrecadar donativos, não há recursos para as festas, que por sua vez, por reunirem muitas pessoas, também não puderam ser realizadas. Sem mencionar o impacto econômico, porque a organização de uma festa de Chegada de Reis movimenta a micro economia da região onde é realizada.

Neste novo cenário, de isolamento social, as Companhias de Reis buscaram se adaptar a essa nova realidade, assim como todos nós, e encontrar maneiras de celebrar o dia de Santos Reis e manter a sua tradição. Algumas Companhias realizaram pequenos rituais, reunindo apenas os integrantes de suas famílias em suas casas, outras conseguiram realizar lives, procurando compreender e dominar essa nova ferramenta tecnológica que ganhou força e se desenvolveu muito rapidamente neste “novo mundo”. Uma ação comum observada foi a de circulação de imagens das bandeiras de Santos Reis através das redes sociais, contendo mensagens de fé e esperança e pedindo proteção para este momento difícil que o mundo está passando. No entanto, em 2020, não se ouviu pelas ruas das cidades o som dos bumbos e das flautas, dos pandeiros e das sanfonas, não se ouviu os sons das violas e violões e cavaquinhos. E não se ouviu a voz do palhaço, anunciando: “Aceita Santos Reis, Patrão?” Uma pergunta carregada de fé e que traz implícita uma mensagem de esperança para toda a comunidade. Hoje, mais do que nunca, Viva os Santos Reis!

 

Estêvão Amaro dos Reis é olimpiense, Doutor e Mestre em Música pela Unicamp e Pesquisador do projeto Temático ‘O Musicar Local – novas trilhas para a etnomusicologia’ – Fapesp/Unicamp/USP e há mais de duas décadas se dedica ao estudo do folclore e das culturas populares brasileiras. O Festival do Folclore de Olímpia foi tema de suas pesquisas, de onde resultaram os trabalhos: O Festival do Folclore de Olímpia, São Paulo: uma festa imodesta (Mestrado, 2012), e Práticas contemporâneas das culturas populares brasileiras: o Festival do Folclore de Olímpia (Doutorado, 2016). Criador do canal Boitatá Folclore e Cultura Popular, no YouTube.

https://www.youtube.co m/channel/UCgqVeh9md Dj48TaTn_Es1Xg


 


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