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Olimpia, 26 de Dezembro, 2016 - 20:07
Ferreira Gullar: Minha vida é um improviso

Ivo de Souza

É um dos mais importantes nomes da poesia – social e engajada – que se produziu nas décadas de 1960 a 1970, cujo contexto político era a ditadura militar e as ditaduras nos países latino-americanos. Em 1964, entrou para o partido comunista, para resistir aos des­mandos da ditadura.


Acadêmico no início da carreira (uso da linguagem formal, parnasiana), participou o poeta maranhense da primeira exposição de poesia concreta (1950) e do grupo neocon­creto carioca – Gullar afirmava, porém,  que o movimento concre­tista “foi um acidente rápido” em sua vida. Não conhecia ainda os modernistas, empolgou-se com a “linguagem moderna”; quando entrou em contato com Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e Jorge de Lima, não teve dúvidas: “...percebi que a linguagem parna­siana tinha de ser superada”. A Luta Corporal marca o resultado dessa ruptura, influenciado também pelas leituras que fez de Otto Maria Carpeaux e Mário de Andrade.

Deu-se o rompimento com a poesia concreta – o Concre­tis­mo é a principal corrente de vanguarda na literatura brasileira, desde a década de 1950 até os dias de hoje – os poetas concretos “pregam o fim da poesia intimista e o desaparecimento do eu lírico e uma concepção poética baseada na geometriza­ção e visuali­zação da linguagem (o movimento concretista teve início em 1956, liderado por Décio Pig­natari e os irmãos Augusto de Campos e Haroldo de Cam­pos.

Gullar retomou o verso discursivo e seus temas, agora, eram a Guerra Fria a corrida atômica, o neocapitalismo, o Terceiro Mundo, entre outros, todos de interesse social. Com o recrudescimento da ditadura e o auge do autoritarismo político, Gullar tornou-se ainda mais engajado politicamente. Ao lado de Antônio Callado, José J. Veiga, Gianfrancesco Guarnieri e Chico Buarque de Hollanda, Gullar viu na poesia um caminho para a resistência à situação política por que passava o país (“tempos de chumbo, de prisões arbitrárias, tortura, morte: pura violência). As obras mais contundentes de José Ribamar Ferreira foram elaboradas nesse período de trevas. Em 1975, publicou Dentro da noite veloz e Poema Sujo, em 1976, escrito no exílio, na Argentina (Buenos Aires). Muitas vozes apareceu em 1999, depois de 10 anos de jejum poético. O poema surpreendeu os leitores e a crítica especializada.

Homem de muitas face­tas artísticas, Ferreira Gullar foi dramaturgo, pintor, ensaísta, produziu literatura infantil e juvenil. Com Oduvaldo Viana Filho fez Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, famosa peça de teatro. Sobre a sociologia da arte produziu o ensaio, em 1969, Vanguarda e desenvolvimento.

Um gato chamado gatinho, a partir das observações de Gatinho e seus outros felinos de estimação (os quais o poeta amava) e O touro encantado, entre outras, são obras nas quais o poeta também mostrou talento, firmando-se no campo (árido) da literatura (chamada de) infantil e juvenil. Com a morte de João Cabral de Melo Neto (1999), o maranhense, de São Luís, vem sendo apontado por vários críticos como o mais importante de nossos poetas na atualidade. Sua melhor poesia é a poesia social. O belo poema abaixo pertence a esta fase.

Dois e dois: quatro

 

Como dois e dois são

quatro

sei que a vida vale a pena

embora o pão seja caro e a liberdade pequena

 

Como teus olhos são claros

e a tua pele, morena

 

como é azul o aceano

e a lagoa, serena

 

como um tempo de alegria

por trás do terror me acena

 

– sei que dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

 

mesmo que o pão seja caro

e a liberdade, pequena.

 

Ferreira Gullar chegou ao Rio de Janeiro em 1951. Lá ficou amigo do crítico Mário Pedrosa (um mestre). Estudou, então, arte e frequentava aulas de pintura com Pedrosa. O crítico, o pintor e o teórico da arte ‘nasceram a partir do contato com Mário Pedrosa.

Quanto a morte, tratava-a (a princípio) como “um simples contra­ponto teórico da vida”.

Há 26 anos, primeiro dia de Finados, após a partida do filho Marcos, então com 32 anos , morte causada pelo excesso de álcool e de outras drogas, Gullar foi ao cemitério. “Pegou uma flor no chão, escreveu num papel. Eu te amo, meu filho. Deixou a lembrança no túmu­lo. Saiu chorando”.

“Perdas inaceitáveis fizeram com que o poeta passasse a ver a morte como é: o horror concreto que arrebata entes queridos. Essa nova visão do partir tornou a obra gullarina (sic) mais emo­tiva, mais comovida, ainda que muito reflexiva e longe da pieguice, um duro equilíbrio dentro do que se chama de poesia”. Acadêmico de primeiro hora, especialista em decassílabos e dode­cassílabos e sonetos no início da carreira (às vezes, distraído, falava em decassílabos tão viciado era na linguagem acadêmica). O nosso D. Quixote (“estou mais para Quixote do que pra Sancho”) deixou-nos há poucos dias, 4/12/2016. Fica seu belíssima obra, a pessoa que foi. Ficam seus poemas, suas poesia fica. Para sempre.

O poema Filhos pertence à fase mais emotiva, mais comovida da obra do poeta Gullar.

Filhos

 

Daqui escutei

quando eles

chegaram rindo

e correndo

entraram

na sala

         e logo

invadiram o escritório

(onde eu trabalhava)

num alvoroço

e rindo e correndo

se foram

com sua alegria

 

se foram

 

Só então

me perguntei

por que

não lhes dera

maior

atenção

         se há tantos

         e tantos

         anos

         não os via crianças

 

já que

agora

estão os três

com mais

de trinta anos.

 

Ferreira Gullar

Ivo de Souza é professor universitário, poeta, colu­nista, pintor e membro da Real Academia de Letras de Porto Alegre.

 


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