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Olimpia, 06 de Novembro, 2016 - 22:43
Escola sem partido (ou quem tem medo da escola que pensa?)

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Ivo de Souza

De vez em quando (em sempre, melhor dizendo), alguém (pessoas públicas) inventam alguma coisa, para dela se ocupar. Agora falam de uma tal de escola sem partido.


Todo educador, na verdadeira significação da palavra, sabe que uma escola livre, democracia, civilizatória, não deve, por meio de imposições externas, pregar a política partidária. Deve é ensinar que uma moeda pode ter mais de duas faces. O que ela deve, portanto, fazer é levar o aluno a pensar, a refletir, a tirar conclusões – sempre após uma cuidadosa observação da realidade, uma análise (criteriosa) baseada em fatos, em atitudes humanas e na contemplação da própria vida. Fazer com que o aluno tenha opiniões próprias acerca de tudo, seja capaz de uma autocrítica sincera e objetiva, para que conheça melhor a si mesmo, a fim de conhecer melhor o outro e o mundo em que vive.

O verdadeiro educador procura despertar o senso crítico (o bom senso) do aluno, levando-o a questionar tudo o que lhe for imposto – isto não significa desrespeito às normas escolares (desde que os professores estejam prontos para o debate esclarecedor, a discussão crítica, que faz, de repente, com que o professor aprenda (é claro que uma boa dose de humildade deve ter o que ensina).

A voz “do que aprende” deve sempre ser considerada, na sala de aula, pelos professores e pelos colegas de classe. O aluno precisa falar e ser ouvido – e aprender a ouvir.

O que devemos ensinar e reforçar são os verdadeiros valores humanos, para que formemos cidadãos conscientes de seus deveres e seus direitos, solidários, respeitosos, tolerantes e receptivos ao diferente, sempre rejeitado pela própria sociedade, que cria e cultiva preconceitos e a intolerância, como “Narciso, que acha feio o que não é espelho”.

Devemos nós, educadores, contribuir para que a criança cresça confiante, crítica, forte, a fim de que possa tomar atitudes (responsáveis) e que “cresça em graça, sabedoria” e fraternidade. Podemos, sim (e é preciso), falar de política (faz parte do nosso dia a dia), conforme o nível de inteligibilidade da turma. O que não devemos, reitero aqui, é levar para a sala de aula, a política partidária e, muito menos, a doutrinação política,  pois estaremos (de)formando o caráter da criança e contribuindo para a formação de gerações de jovens alienados, medrosos, incapazes (repito) de tomar atitudes na vida cotidiana e de conviver, harmonicamente, em sociedade.

Devemos contribuir, verdadeiramente, para formar cidadãos saudáveis e aptos a enfrentar os embates da vida (“Viver é perigoso”, como disse o grande Rosa, o Guimarães). “A vida é luta renhida/ Viver é lutar”.

A criança precisa aprender cada vez mais e cada vez mais cedo (elas são totalmente capazes disso). Quem pensar o contrário está redondamente enganado. Adiar a aprendizagem da criança é inaceitável, cruel e desumano.

O ato de ler é fundamental, no processo de aprendizagem, o qual tem início, mas não tem fim. Aprender é um processo infinito. A leitura não é, como disse Eduardo Martins, apenas uma fonte de ideias ou imagens. Vai muito além disso: ajuda a pensar, a estruturar o raciocínio, a entender o universo (o mundo) em se vive, informa, revela mundos (aos quais só se vai pela imaginação) – outro elemento (imaginação) fundamental na formação do aluno: revela seu lado criativo, aperfeiçoa sua sensibilidade, mexe com sua emoção, enfim, a mágica do ato de ler atribui conteúdo às impressões que todos temos das coisas, das pessoas e de nós mesmos.

Ler, entender, compreender, interpretar o que se lê, nenhuma escola deve prescindir desse processo, que forma alunos “pensantes”, protagonistas, homens e mulheres sempre dispostos a aprender mais e mais e a construir uma sociedade justa, onde todos possam ter os mesmos direitos e oportunidades.  

A escola deve, sim, ter partido. O partido dos que lutam pela educação com meios precaríssimos nos confins do país, dos que acreditam na força da escola pública, do ensino de qualidade, na formação humanística das nossas crianças e jovens, no cultivo dos verdadeiros valores humanos. O partido dos que não acreditam em uma escola para pobres e outra para ricos, mas num espaço (mundo) sem discriminação, sem intolerância e sem preconceito de qualquer espécie, em que as oportunidades sejam as mesmas para todos, em uma escola para a vida, igualitária, inclusiva e, verdadeiramente, democrática. Este é o partido da escola. O partido da pluralidade, do debate em nível das ideias, das várias ideologias, das diferentes visões de mundo, do respeito ao humano e da formação de pessoas comprometidas com a realidade de um mundo melhor, em que não prevaleçam o materialismo, o consumismo desenfreado, a supremacia do supérfluo e o endeusamento da máquina em detrimento do homem. A escola sem “partido” não existe. Pode estar sendo arquitetada...

P.S.: Partido, é claro, como foi explicitado, pormenorizadamente, no texto.

Ivo de Souza é professor universitário, poeta, colunista, pintor e membro da Real Academia de Letras de Porto Alegre.

 


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