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Olimpia, 30 de Agosto, 2015 - 20:12
E, no entanto, se os poréns não fossem tântricos

Willian Zanolli

Queria, desejava, aspirava não escrever sobre coisa alguma, visto ter acumulado ao longo destes dias uma camada tão densa daquilo a que se denominou preguiça que resisti quando o editor, que enquanto “elefarantes” está de licença médica, sou eu mesmo, frequentemente desalmado e com outros defeitos mais e menos graves na forma como conduz a vida e os negócios, solicitou um escrito que abordasse qualquer tema.


Como não sou de cortar fios de cabelo ao meio, se fosse não os teria em quantidade que desabafasse este conflito interno que resmunga que nada há a ser dito ou desdito por enquanto, pensei em aprofundar sobre o nada boiando sobre coisa alguma.

Pode ser que alguém, e há muitos assim perdidos pelos pastos deste planeta, que na hora do parto, que deveria ser hora do estou aqui, chequei, deu certo, caiu de cabeça no asfalto e continua lunático vendo até hoje asteróides em tudo, e verá neste artigo que estou falando de alguém, que nem eu sei exatamente quem é, e que ele sabe o endereço, rua, número, telefone, fake do facebook e preferências sexuais.

Há por este mundão de gado e poeira muita assentada sobre os móveis que compõe o mobiliário que arrastamos pelas estradas todas por onde fazemos nossos descaminhos, gente que sabe mais da gente, quando e como nos arrastamos como nossos sarilhos cambaios e nossa corda apodrecida ao fundo do poço que afoga nossas angústias.

E assim que esta composição vai se formando com sons semitons de complexa desafinação até se transformar nesta sinfônica oração de dias a enfeitar este texto que se me vai envolvendo como se fora a raspa do fundo do doce que sonhei comer algum dia.

Não falo de ninguém, estou distante de mim, e há quilômetros daquilo que pode ser safo, que homem sábio quase nenhum é, ao ponto de me iluminarem com a força de seus horrores.

Beijo esta poesia porque não há mais nada entre a voz e o silêncio dos coturnos, apenas pios onde houve sexo selvagem e algazarra de lençóis que meditavam que não existe nada além do amor que se arrasta na praia suspirando ao sol que desmaie de vez no colo da noite.

E assim ambíguo, desordenado, perdido, caminham sem direção as palavras buscando um seio doce, um porto, um desencontro que seja em um olho que as abrigue afetuosamente com o mesmo carinho que enlaça lágrimas quando roladas corredeiras e cascatas de saudades e solicitude por momentos que gostaria de ver eternizados.

E se arrastando pelo teclado vão elas, vielas do pensamento como grandes cidades se organizando para encanto de gente que lê mas não vê e não sente o que a mente do demente por trás do computador chora de tristeza e de dor.

Há de tudo e às vezes muito mais, como se fossem despedidas, com adeuses sem lenços nem plataformas, rodoviárias, metrôs, estações, nem isto, nem apitos, nem carinhos, nem palavras batendo no cérebro para sempre todo sempre será até quando inté.

E, no entanto, se os poréns não fossem tântricos.

E terminamos porque buzinam na porta, a vida retoma e o texto se despede, de mim e de ti, e de nós, haja nós entre nós.

Willian A. Zanolli é ar­­tista plástico, tendo ilustrado vários anuários do Festival Nacional do Folclore, jornalista, estudante de Direito, pode ser lido no www.willianzanol­li.­blo­gs­pot.com e ouvido de segunda, as sextas-feiras, das 11h30 às 13h­00 no jornal Cidade em Des­taque na Rádio Cidade FM 98.7.e aos domingos no Sarau da Cidade das 10.00 as 12.00hs.


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