Conversar com vizinhos na calçada? Isto não te pertence mais!
 Luiz More Laraia, Edith Vicente, Joaquim Marangoni Neto, Gabriel Suficier, Às vésperas de uma das datas mais importantes para a humanidade, símbolo eterno do "Cristianismo", há outra comemoração importante para o relacionamento humano. Na próxima sexta-feira (23) comemora-se o Dia do Vizinho, ente amigo que muito se assemelha a um verdadeiro irmão, mas que atualmente não tem encontrado o mesmo respaldo. Às vésperas de uma das datas mais importantes para a humanidade, símbolo eterno do "Cristianismo", há outra comemoração importante para o relacionamento humano. Na próxima sexta-feira (23) comemora-se o Dia do Vizinho, ente amigo que muito se assemelha a um verdadeiro irmão, mas que atualmente não tem encontrado o mesmo respaldo.O desenvolvimento urbano e a tecnologia inviabilizam atividades como as reuniões de vizinhos nas calçadas após o jantar, deixando saudades naqueles que viveram amplamente o que classificam como "época de ouro" para o desenvolvimento de uma sociedade com bom padrão de amizades. Luiz More Laraia, 82, que viveu intensamente aquele período, responsabiliza a tecnologia e principalmente a televisão, responsáveis por novos hábitos irem surgindo entre as pessoas. "Não acontece mais por causa da televisão com programas que entretêm as pessoas e elas ficam dentro de casa", lamenta. No entanto, aponta outro vilão para a transformação social à qual são obrigados a conviver. Afora os programas televisivos, também os passeios em shopping center são apontados como forma das pessoas se distraírem de maneira diferente. "Hoje tem um movimento muito grande e não comporta mais sentar à calçada para conversar com os vizinhos. Isso é uma distração que já foi, mas era muito boa. Me lembro disso. Agora, infelizmente, já não é mais possível e, além do mais, o trânsito é muito intenso e quase que não se pode conversar por causa do barulho", acrescentou. Outro fato que aponta são os carros com propagandas sonoras que passam pelas ruas impedindo as pessoas de conversarem normalmente: "porque o som é tão alto que as pessoas se sentem impossibilitadas, quase que não se entende, não se ouve. Até dentro de casa quase que não é possível". Considerando impossível voltar a tradição, Laraia afirma que até gostaria de poder voltar no tempo: "com a nossa tecnologia e com os avanços e o progresso não é possível. A gente contava o número de automóveis. Eram poucas as pessoas que tinham automóveis. Os médicos não tinham e a gente pagava o automóvel (táxi) para ir buscar o médico quando tinha algum doente em casa". Mudaram ou morreram A professora aposentada Edith Vicente, 73, explica que perto de sua casa, onde reside desde a infância, não há mais os vizinhos de antes: "aqueles vizinhos mudaram ou morreram". Mas assim mesmo comemora as grandes amizades que tem. "Temos vizinhos ótimos ainda. Por exemplo, nós nos visitamos em casos de doença ou de acontecimento agradável", avisou. Porém, as reuniões nas calçadas como antigamente são consideradas impossíveis e a falta de segurança vem à tona para justificar a mudança de comportamento: "É o medo de uma pessoa desagradável te surpreender e penetrar em sua casa". O relojoeiro Joaquim Marangoni Neto, 70, que responsabiliza a televisão, afirma que os encontros noturnos entre vizinhos são raros atualmente: "A pessoa tem sempre um programa para ver e só vai à calçada na hora que não tem nada. Isso modificou muito". Considerando que a convivência com os vizinhos é até uma segurança para ter um melhor conforto, reclama: "Se você viver num lugar que não tem convívio com os vizinhos e não tem amizades, você vive isolado. Há necessidade da vizinhança conversar e procurar saber se está tudo bem e ajudar o outro". O cabeleireiro Gabriel Suficier, 58, também enxerga as dificuldades para os vizinhos se reunirem nas calçadas depois do jantar. Para ele a vida era mais saudável: "A amizade é tudo e hoje é uma correria. A gente não tem tempo nem para trabalhar, muitas vezes a gente deve obrigação com vizinhos, amigos ou parentes e joga a culpa no tempo (na falta), que não tem tempo de visitar". Já o motorista Albino Nunes, 80, não acredita na volta do hábito: "Gostava muito daquele tempo, mas já foi, acabou". Convivência com vizinhos ajuda na educação dos filhos O padrão de relacionamento que as pessoas vivenciavam há pelo menos 40 anos atrás, não era apenas a simbologia da amizade que havia entre as pessoas, principalmente no caso dos vizinhos que se reuniam nas calçadas, praticamente todos os dias no início da noite - era certo que os bate-papos somente não aconteciam quando a chuva não deixava -, mas dava também parâmetros de comportamento e ajudava educação e formação dos filhos. A missão, assim pode se dizer, era facilitada pela maior convivência entre a vizinha porque proporcionava um controle maior dos filhos, isto é, enquanto os pais trocavam algumas palavras, as crianças destas famílias também se juntavam em brincadeiras que, além de serem consideradas mais sadias. Atualmente é até mesmo difícil de serem vistas sendo algumas delas revividas apenas por ocasião dos Festivais do Folclore. A facilidade na tarefa de educar os filhos é atestada por Luiz More Laraia: "Acho que era mais fácil porque hoje com a vida noturna dos jovens ficou mais difícil educá-los e dar-lhes um caráter mais familiar". Ele cita também os descaminhos gerados pela facilidade de consumirem drogas, mesmo no caso das que não são consideradas ilícitas. "Os jovens hoje, muitos entram no caminho das drogas e dificilmente saem dele. Graças a Deus nunca tive esse problema na família, mas vejo por aí quantas famílias lutam para livrar os filhos dos malefícios da droga", acrescentou. Elo importante O elo de ligação entre os vizinhos era considerado tão importante que ultrapassa as questões da amizade indo parar nos apadrinhamentos, via batismos religiosos, como conta a professora aposentada Edith Vicente. "Muitas vizinhas se tornavam comadres. O meu pai batizava os filhos (dos vizinhos)", informou. A professora comemora a sorte que teve com os seus vizinhos. "Tinha um dentista da família Prado que as filhas dele eram muito minhas amigas e o meu irmãozinho era muito amigo do Carlinhos", relembrou. Contou também que antigamente na casa ao lado da sua funcionava a cadeia pública e achava interessante as pessoas adentrarem o quintal, com a licença de seu pai, para conversar, através do muro, com os parentes que lá estavam presos. A maneira como foi criado pelos pais é acentuada pelo cabeleireiro Gabriel Suficier. "Quando era criança, se o meu pai estivesse conversando com uma pessoa na sala, a gente nem passava no meio e procurou passar isto aos filhos e quando aparecerem os netos tenho certeza que a gente vai passar também", afirmou.
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